terça-feira, 29 de setembro de 2009

Relançamento do meu livro


quinta-feira, 25 de junho de 2009

Romeu e Julieta pós-moderno

Augusto tinha quatro anos quando saiu de Verona, no norte da Itália, e veio com a família para o Brasil. Não se lembrava de nada da terra dos amantes mais famosos do mundo, mas carregou seu sotaque pelo resto de sua vida. Casou-se muito jovem com a mais nova de uma família de italianos, Ursulina, que foi a única a nascer no Brasil. Tiveram seis filhos - quatro mulheres e dois homens, todos com nomes compostos de quatro letras: Nair, Geci, Ruth, Éris, Aldo e Alba. Quando a filha mais velha saiu para registrar o menino mais novo, a ordem era colocar o nome de Luís, mas no meio do caminho ela resolveu mudar, e assim foi feito, sem que ninguém reclamasse depois.





Ursulina e Augusto


Augusta também se casou cedo e teve cinco filhos: Dorival, Doraci, Dinorá, Dirceu e Dircéa. Seu marido, Domingos,
morreu de infarto aos 42 anos, deixando-a muito jovem com a incumbência de cuidar sozinha dos rebentos. Com muita luta,
sustentou todos, trabalhando sem descanso na pensão que
abriu para ganhar a vida. A vida ainda tinha mais surpresas tristes para ela: o filho mais novo morreu aos 24 anos de peritonite, deixando mais uma ausência plantada em seu coração.


Domingos, marido de Augusta



Augusto estava viúvo havia um ano quando Augusta perdeu o filho. Os dois resolveram amenizar suas solidões e se casaram.

Essa história não teria nada de surpreendente, não fosse pelo detalhe de que Augusto era meu avô paterno, e Augusta, minha avó materna!



Da esquerda para a direita, Augusta, Dinorá, Aldo (que devia se chamar Luís), Ursulina e Augusto


O pai do meu pai se casou com a mãe da minha mãe. Ou seja: meu pai podia chamar minha avó de sogra ou madrasta. Minha mãe podia chamar meu avô de sogro ou padrasto. Meus pais se tornaram irmãos adotivos. Meu pai é também meu tio e minha mãe é minha tia...
Não é de enlouquecer?

Quando contei essa história em um trabalho de Terapia Familiar, ainda na faculdade, a professora disse: "Nossa, o mito da união deve ser muito forte na sua família". Realmente, nossos laços são muito fortes. Ainda bem que existem recursos como Skype, hoje em dia, e que meu pai resolveu se aventurar nessas novas tecnologias, mas é difícil ficar ausente dos almoços aos sábados, quando a família está toda reunida.

Augusta morreu antes de Augusto, com apenas 57 anos. Acho que cansou da vida difícil que levou... Eu tinha somente 5 anos, mas tenho muitas lembranças das rosquinhas de coco que ela comprava para agradar aos netos, das joaninhas que pegava no jardim para eu brincar, do soalho da casa onde ela morava... Augusto viveu até os 82. Muito pouco ainda para mim, que só tive 13 anos para conviver com ele. Ainda sinto saudade cada vez que ouço "Torna sorriento", "Santa Lucia", "Non ho l'età" e outras músicas italianas das quais ele gostava.


O casamento dos meus pais já dura 50 anos, mas a história de Augusto e Augusta não durou muito tempo. Interferências externas atrapalharam o romance dos xarás. Mas foi o suficiente para deixar uma história de Romeu e Julieta bem inusitada para contar para os bisnetos.
Fale a verdade: se fosse uma novela, você ia ou não achar um absurdo?










Aldo e Dinorá

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Viva Santo Antônio


Quando ainda eram namorados, meu pai deu uma um medalhão de presente para minha mãe que era simplesmente maravilhoso. Sobre o ouro amarelo brilhante, havia um castelo esculpido em um tom mais claro de ouro fosco. Uma verdadeira obra de arte.
Na década de 80, virou moda entre as meninas usar anéis de ouro em todos os dedos. Minha mãe, que nunca ligou muito para joias, resolveu derreter aquele medalhão de ouro 18 quilates e botar nos dedos das três filhas – uma ideia completamente insana, visto que entregou de bandeja uma peça cujo valor era obviamente muito maior que seu peso. O ourives jurava que os anéis tinham sido feitos a partir daquele medalhão, mas ninguém seria louco de fazer isso. Na verdade, o ouro utilizado nos anéis era visivelmente inferior. Bem, de qualquer forma, o gesto de minha mãe foi muito bonito, de um desprendimento muito grande, e isso me marcou bastante.
Eu não tirava os anéis dos dedos, nem para tomar banho. Certo dia, quando cheguei da escola, percebi que havia perdido um deles. Fiquei arrasada, principalmente pelo significado que aquelas joias tinham para mim. À tarde, voltei para o colégio, e o bedel me levou de classe em classe, inclusive àquela na qual eu havia estado de manhã. Era uma sala grande de cursinho, que o pessoal chamava de vaticano, onde cabiam mais de cem alunos. Por ironia, a professora estava dando aula de redação e tinha colocado duas opções para os alunos escolherem, sobre as quais deveriam argumentar seu texto: “Vão-se os anéis e fiquem os dedos ou vão se os dedos e fiquem os anéis”. Não preciso nem dizer da algazarra que se formou quando a professora perguntou se alguém teria achado um anel naquela sala!
Minha tia, muito devota de Santo Antônio, ficou sabendo da história e me presenteou com um livrinho, dizendo que o santo tinha fama de ajudar a achar coisas perdidas. Comecei a trezena – uma espécie de novena com duração de treze dias – só por descargo de consciência.
A cada dia, havia um trecho da vida de Fernando de Bulhões, esse português que nasceu em Lisboa, virou agostiniano, para mudar de nome e de ordem religiosa depois de conhecer S. Francisco de Assis, de quem foi contemporâneo. Depois de se tornar franciscano, acabou indo parar em Pádua, no norte da Itália, onde morreu ainda muito jovem. A história desse homem profundamente culto – formado pela Universidade de Coimbra, que na época era o máximo! –, cuja humildade o confinou na padaria de um convento, sem que ninguém tivesse a menor ideia de sua erudição, começou a me encantar. Fiquei tão apaixonada que, no meio da trezena, já estava pensando “ah, vão-se os anéis e fiquem os dedos”, mas não conseguia parar com aquele ritual, que me dava muito prazer.
Passados alguns dias, quando voltei da aula, entrei no meu quarto e vi um objeto brilhante no chão, bem no meio do caminho. Naquela época, uma moça chamada Cleuza trabalhava em casa e varria o chão diariamente! Meu anel estava lá, entre a porta e a cama, onde eu havia passado inúmeras vezes nos últimos dias. Talvez alguém consiga encontrar uma explicação para o que possa ter acontecido, mas eu preferi acatar esse fenômeno como sendo um milagre. Desde então, desenvolvi uma gratidão que me faz ir todos os anos à missa no dia 13 de junho. Desde 1981, isso se tornou um gesto sagrado, que se manteve sob quaisquer circunstâncias. Já fui à missa de Santo Antônio em diferentes cidades, arrastei meu pai que chegava para me visitar em São Paulo com mala na mão direto para a missa... É como o aniversário de um amigo querido, do qual não posso me furtar. Minha irmã embarcou também nessa amizade e, juntas, fomos até Pádua somente para ver suas relíquias – restos da mandíbula e língua de Santo Antônio que não se deterioraram, e que estão no Rio desde o ano passado em comemoração aos 400 anos do Convento de Santo Antônio, no Largo da Carioca, onde comemorei o aniversário de meu amigo em 2008.
Sábado passado, fui à igreja de Santo Antônio dos Pobres, também no Rio. Escolhi a missa das 11h, de acordo com a programação do site da arquidiocese. Passei para comprar meu pãozinho que seria bento e tomei um táxi até o centro. Cheguei às 10h30min pensando que esperaria meia hora até a próxima missa, mas o site estava errado. A ladainha, minha velha conhecida, anunciava o início da missa naquele exato momento: “Santo Antônio rogai por nós, intercedei a Deus por nós”... Se tivesse chegado mais tarde, teria que esperar até a missa das 12h! Meu outro tão querido amigo Irala, que de vez em quando visita este blog, esteve presente no canto de comunhão, através de sua Oração de São Francisco. Foi bonito ver todas aquelas pessoas desconhecidas cantando sua música mais famosa, cheias de fervor. No final da missa, uma surpresa ainda mais encantadora: a bênção final foi dada com as relíquias, que estavam exatamente naquela igreja e para aquela missa. Desta vez, ele também veio ao meu encontro, talvez uma deferência por tantos anos de amizade.
Mais uma vez, eu quase não tive tempo de pedir nada, porque havia coisas demais para agradecer. “Que seria de mim, meu Deus, sem a fé em Antônio?”

terça-feira, 19 de maio de 2009

O rosto da ditadura

Sexta-feira, 13 de agosto de 1977. Esses dados já seriam suficientes para todo mundo se trancar dentro de casa, de preferência dentro de um abrigo antiaéreo. Acho que eu não era muito supersticiosa, porque segui confiante minha mãe até a Av. Nações Unidas, a uma quadra e meia de onde morávamos, para assistir ao desfile do então presidente Ernesto Geisel. Em meio ao clima da ditadura, acenei com minha bandeirinha enquanto assistia reverentemente ao cortejo. Tempos estranhos aqueles... A gente até aprendia a escrever o nome do presidente na calculadora: 735139. Era só virar a calculadora de ponta-cabeça e voilá... Aparecia o nome do cara!
Algumas horas depois, enquanto almoçávamos tranquilos em família, escutamos um estrondo que fez balançar todas as janelas da casa. Estaria Bauru sujeita a terremotos? Assustados, corremos para fora, procurando indícios do que poderia ter acontecido. Meu tio tinha um posto de gasolina não muito distante dali. Pensamos em uma explosão. Estávamos certos até certo ponto... Só que era a Av. Nações Unidas que tinha explodido e ficado totalmente destruída. O asfalto se abriu ao meio, criando um cenário de ficção. Por incrível que pareça, ninguém se machucou. O trânsito devia ser bem mais tranquilo naquela época.
Atentado? Foi a primeira hipótese levantada por todos: um erro de cálculo teria feito com que tudo explodisse depois do horário previsto, sem atingir o general. A explicação oficial foi que um caminhão carregado de gasolina teria sofrido um acidente em outra avenida (Duque de Caxias) e seu conteúdo teria entrado pelo bueiro, sendo levado pelas galerias até o sub-solo da Nações Unidas, construída sobre um rio canalizado. Aquele gás espremido debaixo da terra teria virado uma bomba. Há controvérsias sobre o assunto, mas foi essa história que prevaleceu.
Quem não viveu no tempo da ditadura talvez não imagine como era nunca ter certeza de que a história que lhe contavam era verdadeira. Eu aprendi duas versões sobre a Guerra do Paraguai: uma durante a vigência do AI-5 e outra depois de sua queda.
Uma vez, estávamos na praia escutando "Pra não dizer que não falei das flores", de Geraldo Vandré. Alguém tinha conseguido salvar um compacto daqueles que tinham sido confiscados e era uma emoção sem tamanho transgredir a lei ouvindo a música proibida. De repente, alguém disse: "Pessoal, o Erasmo Dias está hospedado na praia ao lado". Verdade ou não, todo mundo preferiu não arriscar e a vitrola foi desligada rapidinho. Será que estava mesmo?
Não sei por quê, mas lembrei dessas histórias um dia desses, enquanto recordava outra passagem relacionada a uma ditadura, a da Alemanha oriental.
Estive em Berlim algum tempo depois da queda do muro. Ainda vendiam pedaços de reboco e tudo quanto era porcaria como lembrança. O pedaço de parede não me interessou (quem poderia me garantir que não fosse um caco de uma casa em demolição?), mas fiquei seduzida por um broche que me foi oferecido como tendo pertencido a um militar soviético. Era muito interessante: vermelho e dourado, com dois perfis lado a lado. Resolvi comprar, muito mais pelo apelo estético. Meu cunhado, cujo avô era comunista de carteirinha, com a credencial de até ter dividido uma cela com Luís Carlos Prestes, só observava a minha negociação, sem dizer nada. Quando finalizei a compra e saí toda orgulhosa, perguntei a ele e minha irmã o que tinham achado de minha compra. Ele meneou a cabeça e respondeu rindo:
- É, Mônica, é bonito. Só não acho que seja uma boa ideia usá-lo neste momento.
Claro que eu quis saber o porquê. Ele respondeu:
- Porque não seria muito apropriado andar com os perfis de Lênin e Stalin estampados no peito quando a Alemanha começa a experimentar um pouco de democracia...
Guardei meu brochinho na bolsa e meu rabinho entre as pernas.
C´est la vie. Os fantasmas só nos assustam quando sabemos os seus rostos e podemos reconhecê-los. Jamais esquecerei da cara do Geisel. De repente, alguém que não viveu nosso período militar poderia até achar uma medalha com a cara dele super bonitinha...

sexta-feira, 24 de abril de 2009

O difícil equilíbrio entre viver o presente sem descuidar do futuro...


Eu tinha 19 anos quando tomei posse no Banco do Brasil, meu primeiro emprego, e fui trabalhar com um chefe chamado Juarez, no setor de Fundo de Garantia.
Não tenho certeza se ele era nordestino ou filho de nordestinos, mas lembro bem de sua origem muito humilde. Era uma pessoa extremamente batalhadora, que passou por muitos percalços até chegar aonde chegou. Às vezes, até exagerava um pouco na forma como exercia seu cargo. Era comum vê-lo derrubar a caneta de sua mesa e pedir que um de seus subalternos se levantasse e viesse pegar para ele, que aguardava sentado. Eu não me importava. Estava no auge de minha forma física, praticando em torno de vinte horas de balé por semana. Um plié a mais, um a menos...
Apesar de às vezes achá-lo um pouco chato, sentia uma admiração muito grande por sua história de conquista. Tinha estudado Odontologia na USP de Bauru, enfrentando muita dificuldade. O curso integral tomava-lhe o dia inteiro. Entrava às 18h no setor de compensação do banco, onde trabalhava até as 2h da madrugada. Chegava em casa (eu sei que a regência está errada, mas não gosto da formalidade de “chegar a”), estudava, fazia os trabalhos de faculdade, para só então ir dormir e começar sua jornada novamente no dia seguinte.
Após anos de sacrifício, sua vida estava bastante tranquila. Casou-se, teve um filho e terminou a faculdade. Era chegada a hora de usufruir de tudo que tinha plantado nos anos anteriores.
Certo dia, recebi a notícia de que o Juarez tinha morrido aos 33 anos de um infarto fulminante. O futuro com o qual ele sonhara não teve tempo de acontecer. Até hoje me lembro do desespero de sua esposa no velório, chorando inconsolável.
O que eu não sabia, na época, era que essa história me marcaria para sempre. É claro que há casos completamente diferentes desse que contei. O Paulo, um amigo meu, começou a estudar para o vestibular quando estávamos ainda no primeiro colegial (eu não sou do tempo do ensino médio, então ainda chamo por esse nome). Aos 18 anos, passou em Medicina na USP. Várias vezes, nós nos encontramos em São Paulo e eu o repreendi por visitar sua família no máximo duas vezes por ano. Ele dizia que estava investindo no futuro e eu, que já tinha tido a experiência que relatei acima, achava que ele deveria fazer isso sem perder de vista o presente. Hoje em dia, ele é um dos urologistas mais respeitados do mundo! Não tenho dúvidas de que ele atingiu seu objetivo. O Paulo sempre dizia que, aos 40 anos, estaria usufruindo de regalias que nossos colegas que não se dedicavam tanto não teriam. Nós não nos encontramos mais, mas acredito que ele deva viver uma vida luxuosa atualmente. Meu único porém está no fato de saber que ele perdeu os últimos anos de convivência que poderia ter tido com o pai, que faleceu cedo. Mas isso não é da minha conta.
A vida parece que vai durar para sempre quando a gente é jovem, e cada um faz sua escolha de como vai usufruir de sua existência. Há pessoas que escolhem viver somente o presente, no melhor estilo da cigarra, gastando o que têm e o que não têm. Há outras que, feito formiguinhas, trabalham durante o verão para poder ter provisão suficiente para o inverno. Minha luta tem sido para encontrar o equilíbrio entre as duas coisas. Cada um sabe o que é mais importante em sua vida. Eu valorizo muito os momentos que passo com meu marido, com minha família, com meus amigos (os humanos e os de outras espécies). Enquanto tento coletar os gravetinhos e levar para dentro de minha toca, procuro ter os olhos abertos para não perder nenhum desses momentos. Afinal, se o amanhã não chegar, pelo menos eu terei tido o privilégio de saborear as coisas que considero mais importantes nesta vida. E vou deixar esta vida com um sorriso no rosto.

PS: Gislaine, esta é pra você, que me inspirou a escrevê-la.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Ele simplesmente não está tão a fim de você - parte II

Quem me conhece bem, sabe que sou apaixonada por Skinner e seu Behaviorismo Radical. Para os mais desavisados, nem só de Freud vive a Psicologia. Esse americano, professor de Harvard, que viveu no século XX e produziu muito em seus 86 anos de vida (1904-1990), desenvolveu uma forma mais objetiva de tratar das questões psicológicas que poucos conhecem. Mas muitos já ouviram falar da Terapia Comportamental, bastante utilizada no tratamento da Depressão, do TOC (Transtorno Obsessivo-Compulsivo), do Transtorno de Pânico, das Fobias, entre tantos outros, com muito sucesso.
Uma das premissas do Behaviorismo é que nosso comportamento sofre três formas principais de determinação: filogênese, ontogênese e cultura. A determinação filogenética acontece ao longo do processo evolutivo, quando características que permitem a sobrevivência de uma espécie são selecionadas. A cultural é resultado de nossa organização em grupos, que nos submete a certos padrões sociais. A ontogenética ocorre na especificidade histórica que cada um de nós carrega. Por mais que pertençamos à mesma espécie e estejamos inseridos em contextos sociais semelhantes, um indivíduo é sempre único porque uma história de vida nunca é igual à outra. Desde que nascemos, vivemos experiências bastante particulares. Isso explica por que gêmeos idênticos, que compartilham o mesmo DNA e foram criados na mesma família, podem ter atitudes diferentes.
Bem, esse preâmbulo todo foi só para permitir que eu volte à questão que já abordei sobre a busca alucinada por um marido que acomete a maioria das mulheres. Gostaria de dar uma explicação um pouco mais científica para esse fato, buscando um pouco da redenção feminina. Ou, pelo menos, fornecer uma desculpa razoável para as nossas loucuras.
Ao longo da evolução de nossa espécie, os homens estiveram mais associados à caça e as mulheres aos cuidados com a cria. Machos fortes eram disputados, porque protegiam melhor o grupo e conseguiam trazer mais provimentos. Assim era medida a qualidade de um homem. A mulher, por outro lado, deveria ser atraente o suficiente para conseguir alguém para cuidar dela e de sua prole. Também deveria ter habilidades de interação social, porque permanecia mais tempo em grupo, enquanto as caçadas eram mais solitárias.
O século XX foi um período de grande transformação cultural. Mulheres queimaram sutiãs, reivindicaram o direito ao voto, invadiram o mercado de trabalho e passaram a competir com os homens de igual para igual. O problema é que a transformação cultural é muito mais rápida do que o processo evolutivo. Algumas características humanas foram construídas ao longo de milhões de anos, enquanto tudo isso aconteceu em pouco mais de um século! É muito pouco tempo para a gente assimilar tanta mudança.
Algumas pessoas têm a sorte de ter uma história pessoal que privilegiou essa guinada, com mães modernas e experiências favoráveis à transformação. Mas há muitas mães que reforçam a ideia de que a única possibilidade de suas filhas terem alguma coisa na vida é através de um bom casamento, pegando nos pés das coitadas que ainda não laçaram um bom pretendente.
O valor do homem, por toda essa história evolutiva, está muito ligado à sua capacidade de trabalho. Em geral, fracassar nesse âmbito é o suficiente para acabar com a autoestima de um macho. Muitos casos de suicídio masculino estão associados a problemas financeiros ou profissionais. A mulher, por outro lado, tem muito de seu valor associado à capacidade de seduzir e prender um homem. Se ela falhar...
Encontramos muitas mulheres inteligentes e bem-sucedidas profissionalmente completamente frustradas. Sentem como se algo estivesse errado com elas, porque não conseguem manter um parceiro ao seu lado. Tantas outras ficam se submetendo às chatices masculinas mais bizarras, como se dependessem deles. Em seu DNA está gravada a necessidade de alguém para cuidar delas e, por mais que estejam ganhando o suficiente para mandar qualquer canalha para o espaço, não conseguem se libertar.
Qualquer coisa que ponha em dúvida a capacidade de uma mulher realizar esse objetivo para o qual foi programada durante milhões de anos pode causar um estrago. Isso pode acontecer através de pequenas rejeições - muito comuns, porque os meninos não gostam de brincar com as meninas -, através de avaliações negativas de suas habilidades sociais, além de outras inúmeras possibilidades.
A partir daí, ela provavelmente tentará encontrar alguma forma de resolver o problema. Começa um processo de busca de perfeição, e a vaidade vai ditando os objetivos inalcançáveis. Como não acredita mais em seu valor, a mulher passa a procurar a confirmação de suas qualidades no outro. Então tenta seduzir o cara mais difícil, o macho-alfa, aquele que todas perseguem e, portanto, está cheio de alternativas. Se o cara dá um pouco de bola, a moça se anima e começa a achar que ele vai libertá-la do sofrimento reconhecendo o quanto ela é especial. Mas passado um tempinho, o cara vai experimentar outra. Por que se contentar com um único sabor se ele tem tantos à disposição?
O ciclo vicioso está iniciado. Sentindo-se inferiorizada e sofrendo, a mulher passa a perseguir o sujeito que adquire a insólita missão de assegurar o seu valor. A cada rejeição, a mulher se sente mais desvalorizada e torna-se cada vez mais dependente da aprovação do cara – coisa que se torna cada vez mais improvável, visto que a perseguição a torna cada vez menos atraente. A situação é complicada.
Não sei qual é a saída e acho que não tem uma receita igual para todo mundo. Mas penso que aprender a valorizar as próprias qualidades é o primeiro passo. Isso não significa ficar esfregando na cara do outro: “você não enxerga o quanto eu sou linda, inteligente e super legal, seu imbecil?”. Quando a gente realmente reconhece o próprio valor, não precisa ficar anunciando isso aos sete ventos. Além disso, o verdadeiro amor-próprio reduz a raiva e aumenta o respeito por si mesmo e pelo outro. Ninguém tem obrigação de achar que a gente é o máximo. Irão passar pessoas por nossas vidas que não vão se empolgar com a gente, assim como a gente não vai se empolgar com todo mundo no meio do caminho. Isso não deprecia ninguém. Só a gente tem obrigação de gostar da gente.
Investir na própria independência parece um caminho bacana também. Quando eu (re) encontrei meu marido, a última coisa que estava pensando era em casar. Tinha acabado de comprar meu apartamento e reformado tudo do meu jeito. Não ganhava uma fortuna, mas estava feliz com a vida que estava levando e tinha acabado de voltar de uma viagem a Nova Iorque com minha irmã, que é uma excelente companhia. Vai ver que a filogênese falou mais alto para eu largar tudo isso e vir embora para o Rio! Estou feliz casada, mas tenho certeza que também estaria feliz se estivesse lá, vivendo outras coisas que também são muito boas.
Por fim, acho que toda mulher deve se perguntar se a perseguição do macho-alfa se dá realmente por amor. Talvez seja simplesmente pela necessidade de provar a si mesma que é capaz. Quando entende que não precisa conquistar o inconquistável, a mulher passa a enxergar as outras opções. Procriar com o cara alto e forte, para nossas ancestrais, era uma das únicas formas de garantir que o descendente sobreviveria - tanto pelas características genéticas, quanto por ele ter mais condições de cuidar da cria. Mas vamos combinar que a medicina já está bem melhorzinha hoje em dia e você não precisa mais disso. O carinha franzino pode surpreendê-la e se tornar um amante carinhoso e atencioso, como você jamais sonhou que poderia existir. Aquele feioso que você tem desprezado pode não ser um troféu para você exibir para as suas amigas e provar o quanto você é especial, mas pode fazê-la bem mais feliz do que aquele pavão vaidoso que está mais preocupado em manter a barriga de tanquinho do que em fazê-la feliz.
Em resumo: o mundo mudou. Resta à mulher tentar se libertar do passado das cavernas e aproveitar todas as possibilidades que a vida moderna nos oferece.

domingo, 19 de abril de 2009

Na ausência de certezas...


Ontem fui à missa, depois de um razoável período de afastamento.
Tenho preferido manter certa privacidade sobre meus rituais, então andei meio desanimada para compartilhar meus momentos de relação com Deus. Além disso, tenho sentido necessidade de me desvincular de algumas obrigações religiosas, visando estabelecer um relacionamento mais centrado no amor do que no medo do inferno.
Era uma missa privada, para poucas pessoas, onde tivemos a oportunidade de debater o evangelho que conta a famosa passagem de São Tomé, com alguma liberdade.
Enquanto algumas pessoas ressaltaram a falta de fé do apóstolo e de todos nós, fiz questão de falar da autenticidade que ele expressava em sua relação com o Cristo. Talvez muitos outros estivessem também duvidando, mas não tiveram coragem de questionar. É preciso ter muita fé - no outro, na sua capacidade de compreensão, no amor de Deus para nos aceitar e perdoar como somos - para se dar ao direito de se expor, de duvidar abertamente. Eu almejo um pouco desse tipo de relação, onde não existem certezas nem garantias, mas sim um forte sentimento de esperança. Desejo não ter que esconder de Deus as minhas dúvidas, nem meus medos.
Hoje, eu recebi a notícia de que a Luli, minha cachorrinha, morreu em Bauru. Há um ano, uma veterinária disse que ela estava com tumores em todas as tetinhas e o coração muito fraquinho. Seus olhos estavam embaçados pela catarata e ela já não ouvia bem. Já estava bem velhinha: tinha 13 anos. Mas quando eu a colocava no colo, era com se fosse aquele filhotinho minúsculo que eu fui buscar em São Paulo e voltou aninhado em meu colo, abrindo os olhos periodicamente durante o caminho para se certificar de que era verdade que eu a tinha escolhido entre tantos outros, para depois lamber minhas mãos em agradecimento.
Rezei muito, desde então, para que o câncer não lhe trouxesse sofrimento e que o coraçãozinho dela pudesse simplesmente parar de funcionar. Não tenho certeza de que alguém realmente escute nossas preces, mas meu pai disse que ela morreu como um passarinho. Foi parando de respirar, deitou-se e dormiu para não mais acordar.
Meu coração está tomado pela tristeza de saber que não vou mais poder abraçá-la, mas sinto uma profunda gratidão por ela ter tido uma morte tranquila. Por isso, rezei uma oração de agradecimento.
Não tenho certeza da vida depois da morte. Não tenho certeza da existência do paraíso, nem para nós humanos, nem para nossos irmãozinhos de outras espécies animais. Mas tenho uma grande esperança de que São Francisco a tenha recebido, colocado no colo e explicado porque eu não pude segurar a patinha dela nesse momento como gostaria. Acho que ele fala uma língua que os animais entendem. Há pouco mais de duas semanas, eu ainda olhei nos olhinhos dela e disse o quanto a amava, apesar de ter me afastado, embora não tenho certeza que ela entendesse muito bem. Ela só ficava quietinha e recebia meus carinhos quando eu fazia isso, mas eu continuava insistindo.
A vida é feita de muitas incertezas. Tem gente que diz ter certeza de tanta coisa... Eu, sinceramente, não tenho certeza de nada. Por mais que possa chocar os mais incautos, preciso confessar que não tenho certeza nem de que Deus exista. Mesmo assim, eu insisto em seguir a voz que fala ao meu coração, que eu espero que possa ser dele. É ela que me dá esperança e forças para conviver com toda essa falta de certeza.